sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Vinho pra quem gosta de Cerveja... e vice-versa.

Fico um pouco triste com a pequena quantidade de vinho branco que o brasileiro bebe. Nossa culinária, grande costa e o fato de o Brasil ser um país extremamente cervejeiro me faz pensar que os brancos são vinhos que combinariam muito bem com tudo isso. Muitos bebem cerveja por ser barata e muitos por ser leve, refrescante e servida bem geladinha, similar a um grande leque de opções de brancos no mercado. Até acho que muitos dos tomadores de cervejas que se recusam a beber vinho têm perdido muito. O fato é que as duas bebidas dividem muitas semelhanças e muitas diferenças.

A cerveja é frequentemente tratada como uma bebida despretensiosa e simples, enquanto o vinho é exageradamente tratado como uma bebida de elite, chique e para celebração e harmonização em grandes restaurantes. Porém, ambos são fermentados e a cerveja tem uma “vantagem”: pode ser produzida durante todo o ano através de uma grande variedade de cereais. Já o vinho precisa aguardar a safra das uvas, ou seja, tem uma margem de erro muito mais estreita e delicada.




O surgimento de micro-cervejarias e a popularização de grandes vinícolas têm criado caminhos inversos entre esses pares. Nunca tivemos tantas cervejas diferentes, saborosas e aromáticas, fugindo do que estávamos acostumados. Ao mesmo tempo temos cada vez mais vinhos simples, prontos pra beber em qualquer circunstância, num bate papo com amigos ou na beira da piscina. Temos então cada vez mais similaridades com os estilos se aproximando em todas as nuances que podemos encontrar, por isso deixo algumas sugestões para que cervejeiros e enófilos possam encontrar suas alternativas no “outro fermentado”.

Os estilos mais populares de cervejas e os que causam mais controvérsias são os Lagers/Pilseners. A produção em massa e a obrigação de beber a temperaturas praticamente negativas contrastam com as coisas boas que esses estilos devem nos trazer quando bem produzidos: as cervejas precisam ser saborosas, com frescor e leveza. Para quem curte, sugiro provar vinhos com as mesmas características positivas: frescor, boa acidez e aromáticos, como os Sauvignon Blanc da Costa Chilena ou Nova Zelândia, ou um Verdejo Espanhol.

Os que já caminham para o lado dos lúpulos, mas sem exageros, gostam das Pale Ales, que já trazem amargor um pouco maior, aliado aos aromas florais e herbáceos. Nesse estilo temos alguns Pinot Grigio do Friuli e Collio no Norte da Itália, que quando bem feitos trazem aromas cítricos, florais e herbáceos com ótima acidez. Para algo mais inusitado e difícil de achar, temos a Grüner Veltliner, queridinha da Áustria, com mais especiarias no aroma.



Outras queridinhas dos iniciantes são as Witbiers e Weissbiers, leves, matam a sede e são muito aromáticas, com toques de casca da laranja, florais, especiarias, banana e cravo. Um estilo de vinho que acho que combina bem com essas características e a leve doçura que contrasta com a alta acidez é o Vinho Verde, principalmente o produzido com Alvarinho. Traz frutas tropicais, florais e uma boa textura de boca. Podemos voltar ao Sauvignon Blanc de um clima não tão frio e trazendo mais frutas tropicais.

O Vale do Loire pode ser uma opção certeira para quem curte as famosas IPA’s. Existem maníacos por isso, e o amargor, os aromas vegetais de grama cortada e os herbáceos, além dos cítricos e florais, são características dessa família. Nada melhor que a Sauvignon Blanc de climas frios como Sancerre ou Nova Zelândia. Culpa da pirazina, um componente encontrado em algumas uvas incluindo também a Cabernet Franc do Loire pra quem quer se aventurar nas tintas que trazem esse toque vegetal. Finalizo pra quem não quer de jeito nenhum provar brancos e para os que curtem as Porters/Stouts e seus aromas tostados, achocolatados com café e fruta madura. Com acidez equilibrada e redondos em boca, os vinhos da dupla Malbec/Merlot podem ser opções certeiras, sendo carnudos e frutados. Saúde!


Postagem Original no Jornal Imagem da Ilha - Edição 05/09/2016 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Um Brinde à diversidade das uvas!

Você já ouviu falar em Refosco dal Pedunculo Rosso, Viognier, Marselan e Teroldego? Provavelmente não, mas são algumas das uvas cultivadas hoje no Brasil e que não são fáceis de encontrar por aí. Segundo o livro Wine Grapes temos 1.368 variedades de uvas identificadas no mundo, mas essa estimativa pode estar longe de ser verdade, já que existem milhares ainda não identifcadas. Por mais que o Brasil ainda seja um país relativamente pequeno na cultura e mercado do vinho, cultivamos uma enorme variedade de uvas, nas mais variadas regiões.

Talvez o fato de sermos novos no negócio nos permite testar coisas novas e buscar características de clima e solo e seus similares no mundo. Lógico que tudo começou comercialmente, com muita Cabernet Sauvignon e Chardonnay sendo plantadas e, aos poucos, os produtores percebem que talvez essas não sejam as melhores variedades e testem dezenas de outras. É exemplo a nova e belíssima vinícola catarinense que produz somente castas Italianas com rápido sucesso, a Leone di Venezia. Sugiro provar seus vinhos, entre eles o Montepulciano e o Garganega.




Não precisamos ir tão longe para ver que na média geral o consumidor pouco varia suas escolhas. Você lembra a última vez que provou um Cabernet Franc, um Tannat ou um Syrah? Essas são algumas das uvas que têm se desenvolvido de maneira surpreendente em diversos lugares do mundo. A Cabernet Franc é uma uva que sempre deu bons resultados aqui no Brasil e temos diversos bons produtores, como Dunamis e Valmarino. A Dunamis também produz um Tannat que foi premiado como o melhor vinho na avaliação nacional de 2015. Essa uva está sendo muito bem trabalhada em estilos diferentes no Uruguai, que sempre a teve como símbolo.

E talvez a mais fácil de se encontrar das três citadas, a Syrah, é uma uva que vem se destacando em diferentes climas, como os mais frios do Chile e até mesmo em regiões brasileiras como a desconhecida Espírito Santo do Pinhal, na altitude de São Paulo, onde a vinícola Guaspari produziu o “Vista do Chá” que recebeu a medalha de ouro no Decanter Wine Awards. Um feito histórico! Entre as brancas, gosto muito de provar os vinhos portugueses como Alvarinho, Encruzado ou os blends regionais. Mas, uma uva que sempre me chama atenção é a Riesling, que produz desde um honestíssimo Almandén na Campanha Gaúcha até grandes vinhos na Alemanha e Alsácia, do mais seco ao extremamente doce, e caro.



As novidades são tantas que hoje você consegue encontrar Grüner Veltliner em locais além da Áustria, como Califórnia e Nova Zelândia. Aliás, países do novo mundo como Estados Unidos e Austrália, que estão na vanguarda da pesquisa, tendem a ousar bastante e produzir um pouco de tudo identificando micro climas aptos às variedades desejadas. Essa beleza em descobrir novas uvas levou até mesmo produtores em regiões tradicionais a testar novidades e recuperar uvas ancestrais, não deixando que as mesmas variedades de sempre tomem conta de todo o mercado.

Um bom exemplo é o Chile e a redescoberta de vinhedos centenários da uva País no Vale do Maule. Por aqui, com grande influência da cultura Italiana, temos recuperado essas castas no Brasil e bons resultados surgem como, por exemplo, Sangiovese, Teroldego (Angheben) e até mesmo Nebbiolo e Barbera. Como sempre gosto de falar: uma das maiores belezas do vinho é provar sua diversidade!


Coluna escrita para o Caderno Gastronomia do Jornal Imagem da Ilha primeira Quinzena de Agosto 2016
http://www.imagemdailha.com.br/noticias/guia-gastronomico/um-brinde-a-diversidade-das-uvas.html

quinta-feira, 7 de julho de 2016

O Clima e a Safra para o vinho

Inverno frio, verão quente e com a quantidade de chuva exata durante toda a temporada de amadurecimento das uvas, a expectativa com a chegada do fenômeno La Niña nos leva a ter esperanças de uma safra excelente no Brasil. Ano passado tivemos uma safra com perdas de até 80% para alguns produtores. O inverno quente e as geadas tardias, além de granizo e excesso de chuva no período da floração, comprometeram toda a produção.

Essa variação entre o clima de um ano para o outro torna importante a menção daquele número no rótulo sendo uma referência ao ano da colheita das uvas que foram usadas para produzir o vinho. Variações de temperatura, chuva e ouras variáveis climáticas mudam completamente o estilo e qualidade da fruta madura, o que influencia toda a vinificação. Por exemplo, anos mais frios e úmidos propiciam uvas menos alcoólicas e mais ácidas e, por outro lado, anos muito quentes e secos elevam a quantidade de açúcar na uva aumentando o potencial alcoólico do vinho. Nenhum é positivo, o ideal é o equilíbrio. Dias quentes, noites frias e chuva na medida certa para abastecer as videiras e não diluir a expressão da uva são fundamentais. Ao contrário teremos sempre vinhos desequilibrados de um lado ou de outro, precisando de correções e não alcançando sua máxima expressão.

Clima frio em São Joaquim


Essa variação anual é um dos motivos que levam a região de Champagne, por exemplo, a produzir vinhos em sua grande maioria sem a menção da safra do rótulo, pois, para manter um padrão “da casa”, utilizam vinhos reserva de outras safras. Somente em anos especiais, em que o clima é praticamente perfeito, eles fazem um Champagne Millésime ou Vintage em que vale a pena expressar todo o potencial com uvas de uma só safra.

Isso é feito também em vinhos ícones ou especiais de diferentes vinícolas. É muito comum perguntarem quando foi um bom ano. Uma dica é observar os vinhos mais especiais de cada produtor, pois, na grande parte das vezes, eles só são produzidos quando a safra foi boa o suficiente para produzir uvas com a qualidade mínima para se fazer vinhos de alto padrão. Em algumas regiões do mundo em que a natureza contribui com um padrão de alta qualidade ano após ano, isso pode aparecer sempre, mas em outras regiões como o Brasil ou até mesmo Bordeaux e Champagne, essas safras especiais acontecem em um a cada três ou quatro anos, até menos se levarmos em conta a filosofia mais exigente de alguns produtores.

Forte granizo nessa safra em Chablis


A menção de um ano especial num rótulo pode levar ao aumento de preço de um vinho e até mesmo elevar esse vinho para um status de investimento, pois com certeza uma grande safra irá se valorizar com o tempo. Por outro lado isso faz com que safras menos “famosas”, mas de boa qualidade, tenham preços muito interessantes em rótulos famosos, justamente por ficarem à sombra dos anos históricos. Outra opção é comprar vinhos um degrau abaixo dos ícones, quando esses não são produzidos. O motivo é que as uvas que foram selecionadas e cultivadas com intenção de produzir um rótulo especial serão utilizadas num vinho abaixo, geralmente mantendo uma ótima qualidade num vinho de bom preço.

Então, preste atenção nesse detalhe importante. A safra 2012 no Brasil foi de altíssima qualidade, comparável à histórica 2005, que foi fantástica na maior parte do mundo. Em Bordeaux tivemos uma sequência muito boa em 2009 e 2010 que também produziu grandes Borgonhas. Na Itália, 2010 foi histórico para os grandes Barolos e Brunellos, e 2011 produziu vinhos do Porto seculares. Fica a dica!

Coluna Jornal Imagem da Ilha - Link Original - > http://www.imagemdailha.com.br/noticias/guia-gastronomico/o-clima-e-a-safra

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Desafios da Harmonização

Artigo originalmente escrito para o Jornal Imagem da Ilha

Uma das coisas mais faladas no universo dos vinhos é sobre harmonização com alimentos e sua mágica de criar novos sabores e experiências. Até parece uma coisa perfeita quando pensamos assim, mas a realidade é muito diferente dessa visão.


Muitas vezes a harmonização é super valorizada e difícil de se realizar, outras vezes é simplesmente desnecessária e tira toda a espontaneidade do momento. Mas, lógico que quando quero fazer um grande evento, apresentar um excelente Chef ou um ótimo vinho, prefiro ligar os pontos, conversar, provar e harmonizar da melhor maneira a ocasião, idéias e a refeição. Fazendo isso a experiência fica ainda mais memorável.



Mesmo nessas horas muitos alimentos são muito difíceis de harmonizar, são velhos conhecidos dos Sommeliers e fazem parte da lista que dá dor de cabeça quando percebemos entre os ingredientes. São eles: Aspargo, Chocolate, Shoyu, Sashimi, Alho, Alcachofra, Vinagrete, Pimentas e Queijos como Gorgonzola. Lógico que teríamos muito mais, porém são alguns dos mais encontrados por aí.
Todos possuem suas dificuldades particulares. O Chocolate por exemplo tem gordura, tanino e doçura e quanto tomamos um vinho seco ele limpa a gordura e doçura e deixa o tanino amargo, além de ficar um vinho mais sem graça. São muitas tentativas de harmonizar chocolates com vinhos e o que eu encontrei de mais correto são os vinhos do Porto, principalmente da categoria Late Bottle Vintage (LBV) com alto teor alcoólico e doces.


Aspargos, Alcachofras, Brócolis, Alho e Couve de Bruxelas são alguns dos alimentos mais difíceis. Eles possuem diversos fatores em comum que não permitem o casamento com vinho. São alimentos com componentes sulfurosos que imitam defeitos no vinho, além de algum deles possuírem elevado índice de clorofila, como o aspargo, dificultando ainda mais o processo. Nesse caso pra conseguir um pouco de sucesso precisamos de um Sauvignon Blanc bem seco e com ótima acidez ou um bom Grüner Veltliner da Áustria. Uma alternativa radical com o aspargo seria um Jerez Fino que é bem seco e terroso.




Excesso de pimenta anula nossos receptores e o vinho fica mudo além de que o álcool no calor causado pela pimenta nunca é bom. Aqui um vinho com leve residual de açúcar e altíssima acidez como um Riesling alemão pode dar água na boca e contrapor o picante. Falei também sobre queijos mofados, como Gorgonzola e Roquefort que possuem um compontente que cria um odor muito intenso, além de terem sabores marcantes, sobrepondo a maior parte dos vinhos. Aqui precisamos do conjunto acidez-álcool-doçura de um bom Porto.


E finalmente temos uma das cozinhas mais presentes ultimamente na nossa região, a Japonesa com seus peixes crus e molhos de soja. Uma pesquisa descobriu que o pouco de ferro que temos no vinho tinto combinados com os óleos do peixe criam um gosto metálico na boca, nesse caso um vinho branco seco com alta acidez como Riesling e Sauvignon Blanc combinam, mas meu preferido é um bom Espumante ou Champagne Extra Brut. Outro vilão é o molho shoyu com muito sal e um gosto azedo com grande carga de umami, é um desafio e tanto. Duas coisas podem ser feitas, criar uma combinação agridoce com um Espumante Moscatel ou um vinho com características Umami como a uva Carignan do Sul da França.



O desafio é grande, mas como sempre digo, é um prazer testar tudo isso.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O que faz um grande vinho?

O que faz um grande vinho? Viajando pro sul do Brasil nessas últimas semanas pensei muito sobre isso, sobre o que realmente cria um vinho diferente e único. Claro que a resposta pode ser óbvia ou até mesmo subjetiva, falando sobre um vinho que nos surpreende, sobre aromas complexos, sabores únicos e inesquecíveis ou um final de boa quase eterno. Sim, são coisas que realmente os bons vinhos nos passam e sem essas sensações eles seriam ordinários.



Mas, o que eu estava pensando é em relação ao local onde são produzidos. Pensei em alguns grandes vinhos do mundo, em diversas referências para muitas uvas e comecei a perceber que o terroir desses grandes vinhos sempre apresentam muita dificuldade. São climas variáveis ano após ano onde a uva tem que lutar muito pra amadurecer o suficiente. Um dos pontos que me levou a essa conclusão foi o caminho até São Joaquim e depois na outra semana até o extremo sul na Campanha Gaúcha. Durante os últimos meses soube que a nossa safra foi extremamente difícil com uma perda que beira os 70% da produção em algumas vinícolas. Tivemos um inverno quente que fez com que as videiras florescessem muito mais cedo que o normal, logo depois uma sucessão de problemas ocorreu, tivemos chuvas em proporções gigantescas em outubro no período da floração eliminando uma grande parte dos cachos, tivemos também em outras regiões geadas tardias e granizo destruindo uma boa parte da produção.


Essa incerteza faz parte de uma imensa maioria das regiões produtoras e produzir vinho tem essa dificuldade. Mas, o que percebi é que com essa natural diminuição da produtividade e uma certa melhora no clima fizeram com que os cachos que sobraram pudessem amadurecer de uma maneira muito boa em diversos locais. Vi uvas incríveis na região de Bagé nos vinhedos da Dunamis, por exemplo. E se formos pensar em regiões como Borgonha, Nova Zelândia, Oregon ou pequenos locais na Califórnia e África do Sul vemos que são regiões no limite do frio e insolação mínima para produzir ótimas uvas e isso extrai da videira energia extra para amadurecer de uma maneira muito equilibrada seus frutos, mantendo acidez natural e as características necessárias para um grande vinho, vide a Pinot Noir na Côte d’Or.




Isso muitas vezes não acontece em regiões de muito calor e certa “tranquilidade” pra videira e os vinhos ficam óbvios, doces e alcoólicos, são gostosos, fáceis de beber, mas perdem a característica diferenciada e principalmente a evolução com o tempo.


Por isso hoje vemos as vinícolas e os enólogos procurando regiões cada vez mais frias e de maturação difícil, procurando esse diferencial, essa exigência para que a videira concentre todo seu esforço nos preciosos cachos que irão sobreviver e produzir vinhos únicos que refletem o seu terroir e que nos trazem esse diferencial de sabor, aroma e longevidade.



A incerteza do que irá acontecer esta guiando essa nova geração e o garantido se torna chato, isso não só nas regiões como nas técnicas de produção. E é aí que está a graça!

terça-feira, 8 de março de 2016

Vinho e as Mulheres.

Texto original publicado no Jornal Imagem da Ilha http://www.imagemdailha.com.br/noticias/guia-gastronomico/bebidas-1-quinzena-de-maio.html

Alguns dos melhores vinhos do mundo são descritos com nuances femininos perfumados, elegantes, sensuais e delicados, mas sem deixar de serem marcantes e inesquecíveis. Uma das minhas uvas preferidas, a Pinot Noir, é frequentemente tratada como feminina, apesar de que alguns grandes Borgonhas sejam intensos e precisem de muito tempo pra se mostrar. Que homem nunca abriu uma garrafa de vinho num jantar romântico ou primeiro encontro?

Há algum tempo venho comentando sobre o número de mulheres que frequentam a Santa Adega, que tem o poder de escolha do vinho a ser comprado e que buscam participar dos cursos de degustação e eventos didáticos procurando conhecimento. Fica claro o envolvimento cada vez maior nas questões do vinho, algo que até então era muito dominado pelos homens Confrarias, Clubes, Associações e a própria figura do Sommelier sempre foram ligadas ao homem.

Especificamente nos Cursos de degustação conseguimos perceber a maior sensibilidade feminina nas questões gustativas durante as avaliações dos vinhos. As mulheres são muito mais sensíveis aos aromas, sabores e cores do vinho e também conseguem descrever esses vinhos de uma maneira muito gostosa.

Pintura de  Lisa Owen-Lynch - Temecula CA


Não me espanta o fato de que hoje temos um enorme número de mulheres que são referência nacional na área de Sommellerie e na parte didática, seja dando aulas ou escrevendo sobre o assunto. Na parte da enologia isso também vem sendo percebido, mesmo contra o tradicional costume de que apenas os homens se metiam na questão da terra e da cantina, principalmente na Europa. Hoje temos nomes que são unanimidade e absoluta referência na produção de vinhos, figuras como Filipa Pato em Portugal, Susana Balbo em Mendoza, Cecília Torres no Chile, Madame Bize-Leroy na Borgonha e Helen Turley nos EUA são alguns clássicos exemplos do inegável poder que as mulheres têm no universo vinícola.

Jancis Robinson, além de ser absoluta referência Bibliográfica para qualquer pessoa que queira aprender sobre vinho, afirma que “As mulheres são a mais poderosa força econômica no mercado de vinhos hoje em dia”.

Mesmo assim temos ainda hoje a primeira prova do vinho num restaurante sendo servida pro homem da mesa, mesmo sendo a mulher responsável pela escolha. Repito sempre nos treinamentos para que isso não ocorra, mas ainda observo esse fato com frequência. A mulher tem uma relação diferente com o vinho, enquanto o homem muitas vezes o trata somente como status, como se o rótulo fosse aquele carrão importado que chama atenção.

Como sempre estou envolvido com estudos e cursos de vinho, termino aqui com alguns números:  A média de sucesso das mulheres no exame mais difícil do mundo do vinho, o Master of Wine, é maior que a dos homens e no reconhecido exame da Wine and Spirits Education Trust até o fim de 2014 todos os últimos oito ganhadores do prêmio anual entre os 56.000 candidatos mundo afora  eram mulheres. Um brinde a elas!!

Identidade do Terroir de Altitude Catarinense: Uma uva pra chamar de sua.

O artigo abaixo foi publicado no Jornal Imagem da Ilha impresso e online, link original: http://www.imagemdailha.com.br/noticias/guia-gastronomico/uma-uva-para-chamar-de-sua.html



Uma das coisas que se busca quando tenta se consolidar uma região vitivinícola é uma identidade, podemos pensar em centenas de regiões já clássicas no mundo do vinho e veremos que todas elas são diretamente associadas à uma ou duas variedades de uvas. O caminho inverso também é verdadeiro, quando falamos de uma uva geralmente pensamos em algumas regiões que tem capacidade de produzir ótimos vinhos com elas. Posso dar diversos exemplos, como: Pinot Noir e Borgonha, Malbec e Mendoza, Shiraz e Barossa Valley na Austrália, Nebbiolo e Piemonte com os fantásticos Barolos e Barbarescos, Sauvignon Blanc e Marlborough ou Loire, Chardonnay e Chablis, Tempranillo e Rioja, entre tantos outros exemplos conhecidos nesse universo quase infinito.

Vinhedos da Suzin - Foco na Sauvignon Blanc e Testes com Petit Verdot, Malbec e Cabernet Franc




Alguns desses casamentos entre região e uva aconteceram rapidamente, como na Argentina e Nova Zelândia, por exemplo, mas outras mais tradicionais existem há centenas de anos e confirmam a adaptação de uma variedade ao seu local de origem, sendo que na maioria das vezes essas uvas são autóctones e estão completamente adaptadas às características de solo e clima típicos do local.

A Villa Francioni produz, além de Sauvignon Blanc e Chardonnay, mais oito variedades tintas, como Sangiovese.

O Brasil busca uma identidade e a media em que exploramos novas regiões encontramos novos desafios quanto ao terroir. Temos já bem definido que o vinho Espumante é nosso carro chefe no Vale dos Vinhedos e a uva Merlot uma representante de excelência nos tintos nessa Denominação de Origem. Já a Campanha Gaúcha, mais ao sul, ainda busca em diferentes castas a identidade necessária com destaque para a Tannat em algumas vinícolas.


Santa Catarina não poderia ficar de fora e os produtores locais perceberam após quase 10 anos do início das atividades vitivinícolas na região de altitude da Serra Catarinense que uvas de maturação tardia, como Cabernet Sauvignon por exemplo, tem certa dificuldade em amadurecer por completo num clima em que o frio chega cedo e as uvas tem um ciclo vegetativo mais lento devido as condições típicas da altitude acima de 1.000 metros. Porém, diferentes testes vem sendo realizados em micro vinificações, principalmente com castas Italianas, como Montepulciano e Sangiovese e variedades brancas como Sauvignon Blanc e Chardonnay, essa primeira resultando em vinhos muito bem feitos e típicos na grande maioria dos produtores.


Essa confirmação de um destaque para a Sauvignon Blanc, que vem chamando atenção há algum tempo, se confirmou com um painel de degustação realizado pela ABS-SC com a presença de 13 amostras de 12 vinícolas diferentes numa apresentação de José Eduardo Bassetti.

A nova e belíssima Leone di Venezia - Uvas como: Garganega, Aglianico, Sangiovese, Montepulciano, Refosco dal Peduncolo Rosso, entre outras.


A uva se mostrou já adaptada as condições locais e refletindo bem a micro região que se encontra além da filosofia do produtor, qualidade média muito boa e alguns destaques com notas típicas dos bons Sauvignon Blanc do mundo foram encontradas durante a degustação. Inclusive com dois representantes trazendo um toque diferente pra uva, como o Donna Enny da Villagio Bassetti com passagem por barrica e o Quinta da Figueira Garapuvu Amarelo trazendo um vinho laranja, estilo que está em alta e leva uma maceração prolongada aportando mais estrutura e aromas.

Leoni di Venezia

Apesar de uma média muito boa, destaquei alguns que me chamaram a atenção com aromas que variavam no espectros frutado, como goiaba, maracujá e lima/limão além de vegetais e herbáceos como grama cortada, arruda e folha de tomate. São eles o Suzin, o Quinta da Neve e o Villa Francioni.



Após esse painel e sabendo da qualidade do Terroir de Altitude Catarinense fico ansioso para provar as novas amostras das uvas tintas que estão em teste na região. Quem sabe não temos uma para chamar de nossa.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Vinho e Hambúrguer

Mais uma Coluna para o Jornal Imagem da Ilha

Você já tentou andar por Florianópolis ( ou pelo Brasil) e não achar uma hamburgueria?

Ultimamente percebemos que esse lanche fácil de fazer e de agradar está onipresente na nossa região. Lógico que ele ganhou releituras, sofreu até um processo de “gourmetização”, mas continua sendo o bom e velho hambúrguer que identifica uma geração de consumidores.

Um bom burger é tiro certo e um prato pra qualquer hora, lógico que as novidades superaram e muito o conceito do burger fast-food e hoje se tornaram pratos elaborados com dezenas de ingredientes dos mais diferentes. São dezenas de carnes, inclusive opções vegetarianas, uma infinidade de queijos e acompanhamentos que torna a experiência uma delícia e menos enjoativa, pois estamos sempre variando.

Com isso as hamburguerias precisaram evoluir também nos outros serviços, como por exemplo o serviço de vinho. Lembro quando fiz a primeira carta de vinho para uma hamburgueria e subsestimei totalmente o potencial de vendas que iria acontecer. Pode parecer estranho um prato tão despojado e  moderno harmonizar com vinho, mas é uma coisa que gosto muito de fazer, ainda mais com a minha filosofia de descomplicar o consumo do vinho no Brasil.

O Açougueiro - Florianópolis

O hambúrguer tradicional não leva muitos ingredientes e a carne grelhada pode acompanhar um vinho com uma acidez salivante, muito frutado e que pode ser servido a uma temperatura mais fresca, como um bom Pinot Noir Catarinense, como o Suzin.

Mas, a nova tendência das hamburguerias é trazer carnes variadas, como picanha, cordeiro e costela, além de molhos com tendência pra doçura ou picantes e uma variedade imensa de queijos, como cheddar, brie e gorgonzola. Isso pede características diferentes nos vinhos servidos, principalmente quando usamos carnes com sabores mais marcantes, mais gordurosas e grelhadas, dando um toque defumado além do sabor peculiar de cada uma.

Nesse momento a escolha de vinhos pode nos levar para algumas uvas mais inusitadas, como as densas Zinfandel ou Primitivo, nomes dados pelos Americanos e Italianos respectivamente. Essas uvas são carnudas, muito frutadas com taninos doces e toques defumados, perfeitos pra ocasião.  Outras boas opções para hambúrgueres mais complexos são as mais tradicionais Syrah e Malbec, ambas com taninos marcantes, frutadas e com toques de especiaria que casam muito bem com o prato.

Já na opção de carnes brancas ou peixes, como hambúrguer de frango ou salmão, podemos utilizar vinhos brancos ou Rosés e até mesmo espumantes, o mesmo vale para os vegetarianos.  Nesse caso um bom Chardonnay tem boa acidez e a untuosidade necessária para harmonizar com a carne e o queijo utilizado. E o espumante é perfeito para um dia de calor, servido gelado e com suas borbulhas refrescantes e que ajudam na harmonia.


É só escolher seu burguer e seu vinho, opções na cidade é o que não faltam e tem muita coisa boa por aí!