quarta-feira, 4 de maio de 2016

Desafios da Harmonização

Artigo originalmente escrito para o Jornal Imagem da Ilha

Uma das coisas mais faladas no universo dos vinhos é sobre harmonização com alimentos e sua mágica de criar novos sabores e experiências. Até parece uma coisa perfeita quando pensamos assim, mas a realidade é muito diferente dessa visão.


Muitas vezes a harmonização é super valorizada e difícil de se realizar, outras vezes é simplesmente desnecessária e tira toda a espontaneidade do momento. Mas, lógico que quando quero fazer um grande evento, apresentar um excelente Chef ou um ótimo vinho, prefiro ligar os pontos, conversar, provar e harmonizar da melhor maneira a ocasião, idéias e a refeição. Fazendo isso a experiência fica ainda mais memorável.



Mesmo nessas horas muitos alimentos são muito difíceis de harmonizar, são velhos conhecidos dos Sommeliers e fazem parte da lista que dá dor de cabeça quando percebemos entre os ingredientes. São eles: Aspargo, Chocolate, Shoyu, Sashimi, Alho, Alcachofra, Vinagrete, Pimentas e Queijos como Gorgonzola. Lógico que teríamos muito mais, porém são alguns dos mais encontrados por aí.
Todos possuem suas dificuldades particulares. O Chocolate por exemplo tem gordura, tanino e doçura e quanto tomamos um vinho seco ele limpa a gordura e doçura e deixa o tanino amargo, além de ficar um vinho mais sem graça. São muitas tentativas de harmonizar chocolates com vinhos e o que eu encontrei de mais correto são os vinhos do Porto, principalmente da categoria Late Bottle Vintage (LBV) com alto teor alcoólico e doces.


Aspargos, Alcachofras, Brócolis, Alho e Couve de Bruxelas são alguns dos alimentos mais difíceis. Eles possuem diversos fatores em comum que não permitem o casamento com vinho. São alimentos com componentes sulfurosos que imitam defeitos no vinho, além de algum deles possuírem elevado índice de clorofila, como o aspargo, dificultando ainda mais o processo. Nesse caso pra conseguir um pouco de sucesso precisamos de um Sauvignon Blanc bem seco e com ótima acidez ou um bom Grüner Veltliner da Áustria. Uma alternativa radical com o aspargo seria um Jerez Fino que é bem seco e terroso.




Excesso de pimenta anula nossos receptores e o vinho fica mudo além de que o álcool no calor causado pela pimenta nunca é bom. Aqui um vinho com leve residual de açúcar e altíssima acidez como um Riesling alemão pode dar água na boca e contrapor o picante. Falei também sobre queijos mofados, como Gorgonzola e Roquefort que possuem um compontente que cria um odor muito intenso, além de terem sabores marcantes, sobrepondo a maior parte dos vinhos. Aqui precisamos do conjunto acidez-álcool-doçura de um bom Porto.


E finalmente temos uma das cozinhas mais presentes ultimamente na nossa região, a Japonesa com seus peixes crus e molhos de soja. Uma pesquisa descobriu que o pouco de ferro que temos no vinho tinto combinados com os óleos do peixe criam um gosto metálico na boca, nesse caso um vinho branco seco com alta acidez como Riesling e Sauvignon Blanc combinam, mas meu preferido é um bom Espumante ou Champagne Extra Brut. Outro vilão é o molho shoyu com muito sal e um gosto azedo com grande carga de umami, é um desafio e tanto. Duas coisas podem ser feitas, criar uma combinação agridoce com um Espumante Moscatel ou um vinho com características Umami como a uva Carignan do Sul da França.



O desafio é grande, mas como sempre digo, é um prazer testar tudo isso.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O que faz um grande vinho?

O que faz um grande vinho? Viajando pro sul do Brasil nessas últimas semanas pensei muito sobre isso, sobre o que realmente cria um vinho diferente e único. Claro que a resposta pode ser óbvia ou até mesmo subjetiva, falando sobre um vinho que nos surpreende, sobre aromas complexos, sabores únicos e inesquecíveis ou um final de boa quase eterno. Sim, são coisas que realmente os bons vinhos nos passam e sem essas sensações eles seriam ordinários.



Mas, o que eu estava pensando é em relação ao local onde são produzidos. Pensei em alguns grandes vinhos do mundo, em diversas referências para muitas uvas e comecei a perceber que o terroir desses grandes vinhos sempre apresentam muita dificuldade. São climas variáveis ano após ano onde a uva tem que lutar muito pra amadurecer o suficiente. Um dos pontos que me levou a essa conclusão foi o caminho até São Joaquim e depois na outra semana até o extremo sul na Campanha Gaúcha. Durante os últimos meses soube que a nossa safra foi extremamente difícil com uma perda que beira os 70% da produção em algumas vinícolas. Tivemos um inverno quente que fez com que as videiras florescessem muito mais cedo que o normal, logo depois uma sucessão de problemas ocorreu, tivemos chuvas em proporções gigantescas em outubro no período da floração eliminando uma grande parte dos cachos, tivemos também em outras regiões geadas tardias e granizo destruindo uma boa parte da produção.


Essa incerteza faz parte de uma imensa maioria das regiões produtoras e produzir vinho tem essa dificuldade. Mas, o que percebi é que com essa natural diminuição da produtividade e uma certa melhora no clima fizeram com que os cachos que sobraram pudessem amadurecer de uma maneira muito boa em diversos locais. Vi uvas incríveis na região de Bagé nos vinhedos da Dunamis, por exemplo. E se formos pensar em regiões como Borgonha, Nova Zelândia, Oregon ou pequenos locais na Califórnia e África do Sul vemos que são regiões no limite do frio e insolação mínima para produzir ótimas uvas e isso extrai da videira energia extra para amadurecer de uma maneira muito equilibrada seus frutos, mantendo acidez natural e as características necessárias para um grande vinho, vide a Pinot Noir na Côte d’Or.




Isso muitas vezes não acontece em regiões de muito calor e certa “tranquilidade” pra videira e os vinhos ficam óbvios, doces e alcoólicos, são gostosos, fáceis de beber, mas perdem a característica diferenciada e principalmente a evolução com o tempo.


Por isso hoje vemos as vinícolas e os enólogos procurando regiões cada vez mais frias e de maturação difícil, procurando esse diferencial, essa exigência para que a videira concentre todo seu esforço nos preciosos cachos que irão sobreviver e produzir vinhos únicos que refletem o seu terroir e que nos trazem esse diferencial de sabor, aroma e longevidade.



A incerteza do que irá acontecer esta guiando essa nova geração e o garantido se torna chato, isso não só nas regiões como nas técnicas de produção. E é aí que está a graça!

terça-feira, 8 de março de 2016

Vinho e as Mulheres.

Texto original publicado no Jornal Imagem da Ilha http://www.imagemdailha.com.br/noticias/guia-gastronomico/bebidas-1-quinzena-de-maio.html

Alguns dos melhores vinhos do mundo são descritos com nuances femininos perfumados, elegantes, sensuais e delicados, mas sem deixar de serem marcantes e inesquecíveis. Uma das minhas uvas preferidas, a Pinot Noir, é frequentemente tratada como feminina, apesar de que alguns grandes Borgonhas sejam intensos e precisem de muito tempo pra se mostrar. Que homem nunca abriu uma garrafa de vinho num jantar romântico ou primeiro encontro?

Há algum tempo venho comentando sobre o número de mulheres que frequentam a Santa Adega, que tem o poder de escolha do vinho a ser comprado e que buscam participar dos cursos de degustação e eventos didáticos procurando conhecimento. Fica claro o envolvimento cada vez maior nas questões do vinho, algo que até então era muito dominado pelos homens Confrarias, Clubes, Associações e a própria figura do Sommelier sempre foram ligadas ao homem.

Especificamente nos Cursos de degustação conseguimos perceber a maior sensibilidade feminina nas questões gustativas durante as avaliações dos vinhos. As mulheres são muito mais sensíveis aos aromas, sabores e cores do vinho e também conseguem descrever esses vinhos de uma maneira muito gostosa.

Pintura de  Lisa Owen-Lynch - Temecula CA


Não me espanta o fato de que hoje temos um enorme número de mulheres que são referência nacional na área de Sommellerie e na parte didática, seja dando aulas ou escrevendo sobre o assunto. Na parte da enologia isso também vem sendo percebido, mesmo contra o tradicional costume de que apenas os homens se metiam na questão da terra e da cantina, principalmente na Europa. Hoje temos nomes que são unanimidade e absoluta referência na produção de vinhos, figuras como Filipa Pato em Portugal, Susana Balbo em Mendoza, Cecília Torres no Chile, Madame Bize-Leroy na Borgonha e Helen Turley nos EUA são alguns clássicos exemplos do inegável poder que as mulheres têm no universo vinícola.

Jancis Robinson, além de ser absoluta referência Bibliográfica para qualquer pessoa que queira aprender sobre vinho, afirma que “As mulheres são a mais poderosa força econômica no mercado de vinhos hoje em dia”.

Mesmo assim temos ainda hoje a primeira prova do vinho num restaurante sendo servida pro homem da mesa, mesmo sendo a mulher responsável pela escolha. Repito sempre nos treinamentos para que isso não ocorra, mas ainda observo esse fato com frequência. A mulher tem uma relação diferente com o vinho, enquanto o homem muitas vezes o trata somente como status, como se o rótulo fosse aquele carrão importado que chama atenção.

Como sempre estou envolvido com estudos e cursos de vinho, termino aqui com alguns números:  A média de sucesso das mulheres no exame mais difícil do mundo do vinho, o Master of Wine, é maior que a dos homens e no reconhecido exame da Wine and Spirits Education Trust até o fim de 2014 todos os últimos oito ganhadores do prêmio anual entre os 56.000 candidatos mundo afora  eram mulheres. Um brinde a elas!!

Identidade do Terroir de Altitude Catarinense: Uma uva pra chamar de sua.

O artigo abaixo foi publicado no Jornal Imagem da Ilha impresso e online, link original: http://www.imagemdailha.com.br/noticias/guia-gastronomico/uma-uva-para-chamar-de-sua.html



Uma das coisas que se busca quando tenta se consolidar uma região vitivinícola é uma identidade, podemos pensar em centenas de regiões já clássicas no mundo do vinho e veremos que todas elas são diretamente associadas à uma ou duas variedades de uvas. O caminho inverso também é verdadeiro, quando falamos de uma uva geralmente pensamos em algumas regiões que tem capacidade de produzir ótimos vinhos com elas. Posso dar diversos exemplos, como: Pinot Noir e Borgonha, Malbec e Mendoza, Shiraz e Barossa Valley na Austrália, Nebbiolo e Piemonte com os fantásticos Barolos e Barbarescos, Sauvignon Blanc e Marlborough ou Loire, Chardonnay e Chablis, Tempranillo e Rioja, entre tantos outros exemplos conhecidos nesse universo quase infinito.

Vinhedos da Suzin - Foco na Sauvignon Blanc e Testes com Petit Verdot, Malbec e Cabernet Franc




Alguns desses casamentos entre região e uva aconteceram rapidamente, como na Argentina e Nova Zelândia, por exemplo, mas outras mais tradicionais existem há centenas de anos e confirmam a adaptação de uma variedade ao seu local de origem, sendo que na maioria das vezes essas uvas são autóctones e estão completamente adaptadas às características de solo e clima típicos do local.

A Villa Francioni produz, além de Sauvignon Blanc e Chardonnay, mais oito variedades tintas, como Sangiovese.

O Brasil busca uma identidade e a media em que exploramos novas regiões encontramos novos desafios quanto ao terroir. Temos já bem definido que o vinho Espumante é nosso carro chefe no Vale dos Vinhedos e a uva Merlot uma representante de excelência nos tintos nessa Denominação de Origem. Já a Campanha Gaúcha, mais ao sul, ainda busca em diferentes castas a identidade necessária com destaque para a Tannat em algumas vinícolas.


Santa Catarina não poderia ficar de fora e os produtores locais perceberam após quase 10 anos do início das atividades vitivinícolas na região de altitude da Serra Catarinense que uvas de maturação tardia, como Cabernet Sauvignon por exemplo, tem certa dificuldade em amadurecer por completo num clima em que o frio chega cedo e as uvas tem um ciclo vegetativo mais lento devido as condições típicas da altitude acima de 1.000 metros. Porém, diferentes testes vem sendo realizados em micro vinificações, principalmente com castas Italianas, como Montepulciano e Sangiovese e variedades brancas como Sauvignon Blanc e Chardonnay, essa primeira resultando em vinhos muito bem feitos e típicos na grande maioria dos produtores.


Essa confirmação de um destaque para a Sauvignon Blanc, que vem chamando atenção há algum tempo, se confirmou com um painel de degustação realizado pela ABS-SC com a presença de 13 amostras de 12 vinícolas diferentes numa apresentação de José Eduardo Bassetti.

A nova e belíssima Leone di Venezia - Uvas como: Garganega, Aglianico, Sangiovese, Montepulciano, Refosco dal Peduncolo Rosso, entre outras.


A uva se mostrou já adaptada as condições locais e refletindo bem a micro região que se encontra além da filosofia do produtor, qualidade média muito boa e alguns destaques com notas típicas dos bons Sauvignon Blanc do mundo foram encontradas durante a degustação. Inclusive com dois representantes trazendo um toque diferente pra uva, como o Donna Enny da Villagio Bassetti com passagem por barrica e o Quinta da Figueira Garapuvu Amarelo trazendo um vinho laranja, estilo que está em alta e leva uma maceração prolongada aportando mais estrutura e aromas.

Leoni di Venezia

Apesar de uma média muito boa, destaquei alguns que me chamaram a atenção com aromas que variavam no espectros frutado, como goiaba, maracujá e lima/limão além de vegetais e herbáceos como grama cortada, arruda e folha de tomate. São eles o Suzin, o Quinta da Neve e o Villa Francioni.



Após esse painel e sabendo da qualidade do Terroir de Altitude Catarinense fico ansioso para provar as novas amostras das uvas tintas que estão em teste na região. Quem sabe não temos uma para chamar de nossa.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Vinho e Hambúrguer

Mais uma Coluna para o Jornal Imagem da Ilha

Você já tentou andar por Florianópolis ( ou pelo Brasil) e não achar uma hamburgueria?

Ultimamente percebemos que esse lanche fácil de fazer e de agradar está onipresente na nossa região. Lógico que ele ganhou releituras, sofreu até um processo de “gourmetização”, mas continua sendo o bom e velho hambúrguer que identifica uma geração de consumidores.

Um bom burger é tiro certo e um prato pra qualquer hora, lógico que as novidades superaram e muito o conceito do burger fast-food e hoje se tornaram pratos elaborados com dezenas de ingredientes dos mais diferentes. São dezenas de carnes, inclusive opções vegetarianas, uma infinidade de queijos e acompanhamentos que torna a experiência uma delícia e menos enjoativa, pois estamos sempre variando.

Com isso as hamburguerias precisaram evoluir também nos outros serviços, como por exemplo o serviço de vinho. Lembro quando fiz a primeira carta de vinho para uma hamburgueria e subsestimei totalmente o potencial de vendas que iria acontecer. Pode parecer estranho um prato tão despojado e  moderno harmonizar com vinho, mas é uma coisa que gosto muito de fazer, ainda mais com a minha filosofia de descomplicar o consumo do vinho no Brasil.

O Açougueiro - Florianópolis

O hambúrguer tradicional não leva muitos ingredientes e a carne grelhada pode acompanhar um vinho com uma acidez salivante, muito frutado e que pode ser servido a uma temperatura mais fresca, como um bom Pinot Noir Catarinense, como o Suzin.

Mas, a nova tendência das hamburguerias é trazer carnes variadas, como picanha, cordeiro e costela, além de molhos com tendência pra doçura ou picantes e uma variedade imensa de queijos, como cheddar, brie e gorgonzola. Isso pede características diferentes nos vinhos servidos, principalmente quando usamos carnes com sabores mais marcantes, mais gordurosas e grelhadas, dando um toque defumado além do sabor peculiar de cada uma.

Nesse momento a escolha de vinhos pode nos levar para algumas uvas mais inusitadas, como as densas Zinfandel ou Primitivo, nomes dados pelos Americanos e Italianos respectivamente. Essas uvas são carnudas, muito frutadas com taninos doces e toques defumados, perfeitos pra ocasião.  Outras boas opções para hambúrgueres mais complexos são as mais tradicionais Syrah e Malbec, ambas com taninos marcantes, frutadas e com toques de especiaria que casam muito bem com o prato.

Já na opção de carnes brancas ou peixes, como hambúrguer de frango ou salmão, podemos utilizar vinhos brancos ou Rosés e até mesmo espumantes, o mesmo vale para os vegetarianos.  Nesse caso um bom Chardonnay tem boa acidez e a untuosidade necessária para harmonizar com a carne e o queijo utilizado. E o espumante é perfeito para um dia de calor, servido gelado e com suas borbulhas refrescantes e que ajudam na harmonia.


É só escolher seu burguer e seu vinho, opções na cidade é o que não faltam e tem muita coisa boa por aí!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O Vinho no Brasil - Coluna Jornal Imagem da Ilha

O vinho nunca esteve tanto na mídia no Brasil. Não sei se o motivo é pelo fato de eu trabalhar no ramo e consequentemente procurar notícias, ler e falar sobre o assunto todod dia, além, é lógico, de ser bombardeado de informações em qualquer local da internet que me meto, pois o google, facebook e outros sites utilizam as minhas informações de interesses pra me alimentar com conteúdo. 

Mas, de fato temos mais a presença do vinho nas camadas mais populares da informação, revistas, jornais e até mesmo novelas no horário nobre abordam o tema com mais frequência e até mesmo com certo protagonismo.

Esse acesso ao tema faz com que o vinho seja falado mais vezes, procurado mais vezes e logicamente apreciado mais. Até mesmo em locais novos, onde chego sem ser apresentado como Sommelier ou proprietário de adega o tema sai com mais frequencia. Nas festas que antes só se viam cervejinhas aguadas hoje vemos não somente cervejas melhores, mas vinho!

Isso é fantástico e mostra que aquela bebida tida como celebrativa, romântica ou “de velho” como já ouvi falar está em copos descompromissados num churrasco no final de semana ou numa festinha de aniversário onde cada um leva a sua bebida. Vejo isso também na loja recebendo clientes querendo escolher vinho pra confraternização de quinta a noite ou o jantar da turma da academia e o melhor, querendo harmonizar com a pizza ou o risotto que será feito.

Essa busca pelo vinho, simplesmente vinho, é as vezes mais interessante que a busca pelo vinho quase como um vício, da enofilia. É quando o Brasil vai deixar de ser apenas uma casa depois da vírgula no consumo per capita e se tornar um país em que o vinho se democratizou, tirou o terno e gravata, o sotaque estrangeiro, as palavras difíceis e foi bebido, simples assim!

Imagino sempre se o vinho fosse tratado com respeito pelos nossos governantes, como uma cultura que dá sustento não só ao camponês, mas a empresário que geram empregos, como uma bebida que gera cultura, conhecimento, socialização e principalmente relacionada a bons costumes e saúde, seria fantástico poder chegar numa loja ou mercado e comprar um vinho de verdade por quatro ou cinco unidades monetárias nacionais, como acontece na Europa, por exemplo.

Mas, como disse na última coluna, mais um imposto na absurda cadeia tributária do vinho aumentou e nós que geramos emprego, mas ainda mais, geramos a cultura do vinho somos penalizados. Ainda assim conseguimos alternativas, lógico, mas com muito trabalho e penalizando o consumidor.

Nessa semana comentando e degustando vinhos num curso básico na Santa Adega provamos dois vinhos nacionais que foram unanimidade pros 15 participantes que até então nutriam do velho preconceito contra os vinhos Brasileiros. Ao lado de dois representantes Chilenos e Argentinos de preços até mais altos o Miolo Cuvée Giuseppe Merlot/Cabernet e o Villa Francioni Francesco mostraram que podemos ter vinhos numa camada intermediária de preço (faixa de R$60-R$70) competindo com os nossos vizinhos, ainda mais depois da desvalorização do Real.

E se formos comparar com os famigerados Reservados Chilenos nossos vinhos na casa dos R$20-R$30 não fazem feio também. Lógico que gosto pessoal não se discute mas, prove e tente não aprovar!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Dunamis Chardonnay - #Cbe

Após mais de um ano completamente parado, retorno ao Blog contando uma experiência pessoal única e aproveitando o tema da #CBE Confraria Brasileira de Enoblogs.

Qual Sommelier ou enófilo nunca sonhou em ter seu próprio vinho? 

Colher as uvas, vinificar, escolher regime de envelhecimento, barricas, inox, enfim, fazer algo que seja exatamente do seu jeito.
Confesso que sempre quis isso e talvez seja um projeto futuro, e que também já ajudei em muitas colheitas e vinificações em dezenas de vinícolas ao redor do mundo, tenho alguns vinhos que posso afirmar “tem um pouco da minha mão ali!”.

E falando nisso, no ano passado, tive o prazer e orgulho de ser convidado pela equipe de Enólogos da Dunamis, uma vinícola relativamente nova e que já mostrou a que veio localizada na Campanha Gaúcha, a finalizar a produção de seu novo branco, um Chardonnay.
Há alguns anos conheço o Enólogo César Fornari de Azevedo e ele está hoje como enólogo consultor da equipe formada pelos jovens e dinâmicos Vinícius Cercatto e Thiago Peterle. Nos reunimos durante um intenso dia em Livramento para definirmos a proporção de barrica no corte final do Chardonnay Dunamis.



“Convidamos o Eduardo a se juntar com a equipe técnica da Dunamis. A experiência em degustação e harmonização dos mais variados vinhos do mundo ajudou a criar um vinho que reune todas as características da Dunamis com demandas do consumidor trazidas pelo Eduardo. Criamos um vinho para o Brasil, que se iguala aos mais variados estilos de Chardonnay do mundo”, antecipa Cercato.

Foi um dia de muito aprendizado, muita degustação de alguns dos grandes Chardonnays do Brasil e de muito bate papo e troca de ideias entre os lados produtivos e comerciais do vinho.



O Vinho foi lançado em Florianópolis e após um pequeno período em garrafa para passar o susto do engarrafemento e está cada vez mais se demonstrando um excelente Chardonnay.

A preferência por exprimir a fruta e deixar a madeira como coadjuvante foi acertada, o vinho tem cor amarelo com leves tons dourados e esverdeados. O aroma é de ótima intensidade, misturando as frutas brancas e cítricas, como maçã verde e lima, além de um fragrante toque floral que remete a flor de laranjeira e uma especiaria típica da passagem de 20% do volume em barricas novas de carvalho francês, trazendo notas de baunilha e manteiga de cacau. Com um tempo em taça aromas que lembram alecrim surgiram e na boca o vinho se confirma fresco, mas com ótima estrutura, além do untuoso amanteigado que envolve o paladar. Um potencial para evoluir por mais uns 2-3 anos na garrafa. Foram produzidas 4.100 garrafas.


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Portugal na taça - Coluna Imagem da Ilha

Já comentei sobre minha preferência ultimamente por vinhos Portugueses. Não só tive a oportunidade de provar muita coisa boa de lá, mas também de visitar as regiões de Portugal e ver como estão fazendo bons vinhos, vinhos diferentes, vinhos gastronômicos, vinhos “Cult” e vinhos ótimos pro dia a dia. Ou seja, tem vinho pra todos os gostos. 

Mas, também, os vinhos de Portugal são os que mais investem no mercado local ultimamente, não através da programação intensa da ViniPortugal, mas também com atuações individuais das importadoras, as já tradicionais e novos negócios vindo diretamente da terrinha. Isso nos dá a oportunidade de provar sempre coisa nova, de conhecer os produtores e de entender bem o motivo de Portugal estar se tornando uma evidência mundo a fora.


Pra quem acompanha as notícias do mundo do vinho deve ter visto nesse mês que passou que Portugal emplacou nada mais que três vinhos entre os quatro primeiros colocados da famosa lista Top 100 da Wine Spectator, respeitada revista americana, referência no assunto.  A região do Douro foi o grande destaque com um vinho do Porto (Dow’s 2011) levando o cobiçado posto de primeiro lugar e dois tintos. Isso foi um feito e tanto e ecoou por todos os cantos.


Mas eu já esperava esse sucesso, ainda mais quando podemos perceber o quanto Portugal inovou e se preocupou em fazer o melhor, sem cobrar valores absurdos pra isso. Hoje além dos produtores tradicionais temos novas empresas investindo em trazer os mais variados projetos pro Brasil e em novembro recebi na Santa Adega um desses projetos com vinhos incríveis das mais variadas regiões, entre elas Dão, Douro, Alentejo, Tejo e Vinho Verde. A Lusovini nos apresentou sua gama de vinhos de alta qualidade, entre eles diversos projetos pessoais de renomados enólogos, muita coisa nova e que irá render bons frutos.  Um dos destaques foi a Andresen, casa respeitada de vinhos do Porto especializada no estilo “colheita” e Porto Branco. Tive o prazer de visitá-los em Vila Nova de Gaia e provar toda sua gama, inclusive um fabuloso e inesquecível Porto Colheita 1900.


Outras empresas têm feito o mesmo e eu tenho abraçado a idéia não só tendo disponível uma enorme gama de vinhos portugueses no portfólio, mas abrindo as portas para que enólogos e importadores possam nos passar conhecimento e nos brindar com seus vinhos. Essa é a melhor maneira de conhecer o que um país faz de bom, de diferente e de passar isso aos clientes de forma objetiva e clara, ainda mais pra um país que é tão tradicional na produção de vinhos, mas que por algum motivo sempre esteve relacionado a vinhos mais simples. Hoje vemos que não só de vinhos com excelente relação entre preço e prazer Portugal nos brinda, mas também com vinhos pra se colocar entre os melhores do mundo.



Lógico que indico alguns Portugueses de respeito. Nessa última degustação tivemos um branco excelente de alta gama com uma uva típica do Dão, a Encruzado, um vinho rico, com ótima textura e muito gastronômico chamado Quinta do Pinhanços.  E pra refeição terminar em alto estilo um Porto Branco envelhecido 10 anos produzido pela Andresen, um vinho complexo, com uma acidez deliciosa e muito bem equilibrada com a doçura típica de um bom Porto.